Fátima Gavioli – De doméstica à secretária de Educação

jan 16 • Destaque, Educação, Notícias • 690 Visualizações • Nenhum comentário em Fátima Gavioli – De doméstica à secretária de Educação

Fátima Gavioli é uma paranaense de Goio Êre que completa 47 anos de vida no próximo dia 5 de fevereiro, que assumiu a Secretaria de Educação – Seduc com muita vontade de trabalhar e que por força do destino, assumiu interinamente a Superintendência da Secel e está se esforçando, para no período que passar por ali, não comprometer a Superintendência, com nenhum tipo de acordo de pagamento que mais tarde possa ser impedido, inclusive pela Lei.

Assim começou nossa conversa com a professora mestra Fátima Gavioli na manha da última quinta-feira, 08, em seu gabinete da Secretaria de Educação no Palácio Rio Madeira. Na conversa ficamos sabendo da luta enfrentada pela família que veio do Paraná em busca de um pedaço de terra, em especial daquela menina que para ajudar os pais na criação dos irmãos, foi trabalhar como doméstica na casa de uma família de Cacoal e com todo sacrifício e acima de tudo determinação, foi galgando seus objetivos e hoje é a secretária de Educação do Estado de Rondônia – Fátima Gavioli de doméstica à secretária da Seduc, a vitória da determinação

ZK – E na Seduc?
Fátima Gavioli – Estamos nos esforçando para colocar a educação estadual em Rondônia entre as melhores do Brasil.

ZK – Quando veio para Rondônia e por quê?
Fátima Gavioli – Vim criança! Meus pais são do Paraná e vieram como todo brasileiro veio, atrás de terra. Chegamos aqui muito pobre, eu sou a filha mais velha de uma família de cinco irmãos. Moramos em Ariquemes de onde fomos para a antiga Cafelândia que hoje é o município de Rio Crespo, minha família mora até hoje em Rio Crespo, mas, com toda doença, malária que meu pai teve eu saí para trabalhar como doméstica.

Zk – Essa história tá ficando boa. Foi trabalhar como doméstica na casa de quem?
Fátima Gavioli – Fui trabalhar em Cacoal na casa da família do senhor Divino Cardoso, que foi prefeito da cidade. Trabalhei durante sete anos. Criei os filhos dele. Nesse ínterim a única coisa que me movia era o desejo de estudar.

 O governo vem estudando a possibilidade de levar a educação com mediação para  a floresta”.

O governo vem estudando a possibilidade de levar a educação com mediação para a floresta”.

ZK – O Divino Cardoso pagava bem a empregada doméstica?
Fátima Gavioli – A empregada doméstica ganha livre, tudo dela é livre, é xampu, sabonete, pasta de dente, toalha, enfim, ela ganha tudo! O meu salário sobrava pra mandar pelo Correio pra Rio Crespo, que era Cafelândia. Ali minha mãe comprava roupas pros meus irmãos (nesse momento Fátima se emociona e lagrima). Em Cacoal fiz uma proposta aos meus patrões, dizendo que como a casa era muito grande e eles tinham duas empregadas e uma delas ia casar, então que eles me deixassem assumir a cozinha.

ZK – Eles concordaram?
Fátima Gavioli – Disseram que eu não daria conta, e eu disse pra mim mesma, tenho que dar conta, porque um salário vou mandar pra Cafelândia e com o outro, vou pagar a faculdade. E assim, fiz o curso de Letras na Unesc antiga Sec do professor Ismael Cury, depois fiz Direito na Universidade Federal de Rondônia, depois Pedagogia e depois pós-graduação.

ZK – Era limpando a casa dos Cardoso e estudando. Sobrava tempo pra namorar?
Fátima Gavioli – Claro, tanto que casei, tive dois filhos maravilhosos e então fiz Mestrado em Educação. Foi quando a mosca azul da educação me picou de verdade e descobri o que era estar na sala de aula, que tem uma magia que só quem sabe vai entender.

ZK – Exemplo?
Fátima Gavioli – O professor em sala de aula pode ser rainha, rei, pode ser guerreiro, pode ser escravo. Ali contando histórias para os alunos ele pode ser o que ele quer, é muito gratificante quando você realmente ama a profissão.

ZK – E como administradora da área?
Fátima Gavioli – Nessa minha luta, fui representante de ensino durante quatro anos na gestão da secretária Sandra Marques, depois fui ser professora universitária e agora, depois de quatro anos na coordenação de ensino em Cacoal, o governador Confúcio Moura me convidou para conduzir a educação estadual. Sou muito simples Zekatraca! Tenho dificuldade, por exemplo, em almoçar em lugares muito glamuorosos, ainda sofro com esse luxo todo que o pessoal do primeiro escalão, mesmo não querendo, tem que ter em determinadas solenidades.

ZK – Na Seduc qual sua meta?
Fátima Gavioli – Minha maior preocupação é que cada escola tenha dignidade, qualidade, compromisso com nossos estudantes com nossos funcionários.

ZK – Por falar nisso, estamos em pleno início do ano escolar. Como a Seduc está administrando a demanda de alunos?
Fátima Gavioli – Até o dia 15 estaremos trabalhando as matrículas depois as rematrículas e no final do mês, faremos a chamada escolar que é para aquele aluno que não está matriculado em nenhuma escola no Estado todo. Tem vaga pra todo mundo.

ZK – Qual o calo seco da Seduc?
Fátima Gavioli – É a falta de professores! Eu tenho professores, mas, eles estão uma hora doentinhos, outra hora de licença prêmio, outra hora de licença sem vencimento. No quadro eles existem, não existem de fato, essa é a nossa maior preocupação.

ZK – Está prevista a realização de concurso?
Fátima Gavioli – Sim, porém em alguns casos a gente faz o concurso e não consegue preencher as vagas, principalmente nas localidades mais distantes e com isso, o governo vem estudando a possibilidade de levar a educação com mediação para a floresta.

ZK – Como vai funcionar esse estilo de educar?
Fátima Gavioli – Esse estilo já é utilizado no Amazonas e na Bahia. Exemplo, vou pegar o Distrito de Pacarana que fica a quase cem quilômetros de Espigão D’Oeste já entrando ali pelo Mato Grosso. Ali a gente coloca uma Torre e na hora que começa a aula em Porto Velho começa lá também, na sala fica um professor mediador. Esse programa faz tanto sucesso que o secretário do estado do Amazonas que foi o criador, já foi premiado internacionalmente e foi copiado pela Bahia onde já existem 1,3 mil postos do Ensino Médio com Mediação Tecnológica. É o futuro! Aí você pergunta: mas vão substituir o professor pela máquina? Não, se o professor for inteligente ele vai entender a situação, essa técnica será aplicada nos lugares onde o professor não faz concurso ou não aceitar ir. E mais se eu tenho o Ensino Médio Tecnológico tenho mais dinheiro para fatiar entre os professores, porque não fico enchendo a folha com professores temporários ou leigos! Tá dando certo na Bahia e no Amazonas.

ZK – Quando começa a funcionar esse sistema?
Fátima Gavioli – Este ano vamos começar com 15 salas experimentais em Rondônia. Se Deus quiser não vai faltar educação, ora Educação Tecnológica, ora Presencial, ora Educação de Jovens e Adultos. Se eu puder instalar essa Torre dentro do presídio todos os presos vão ter acesso ao Ensino Médio. Nossa gerente Angélica essa semana vai ao Amazonas assinar o contrato.

ZK – Uma das metas do governador Confúcio são as escolas de ensino integral. Este ano quantas estarão funcionando com esse sistema?
Fátima Gavioli – Este ano teremos 20 Escolas Integradas funcionando, a meta é ampliar para mais 30. Quando o governador começou trabalhar esse estilo, as pessoas pensavam que era uma invenção do governador Confúcio Moura a educação integrada, não é! Temos um documento assinado na ONU, na OEA uma declaração assinada que até 2020 todos os municípios dos Estados brasileiros terão pelo menos 50% da Rede de Ensino em regime integral.

ZK – Como funciona uma escola que adota o regime integral?
Fátima Gavioli – O aluno entra às 7h30 tem quatro horas de aula, almoça e depois vai para a oficina. Na escola integral a criança tem horário para tomar banho, para fazer as refeições, para brincar e até para tirar uma soneca, pois, existem os colchonetes para isso. Disciplinar uma pessoa não é fácil, principalmente nos tempos atuais onde toda criança por mais pobre que seja, tem um celular com internet.

ZK – Para encerrar. Como funciona a cultura em Cacoal?
Fátima Gavioli – O povo de Cacoal é literalmente politizado, tudo em Cacoal pega com muita intensidade. Exemplo, se deflagram uma greve e contar com o apoio de Cacoal pode contar que será sucesso. Isso quer dizer que eles estão muito bem preparados na questão da juventude, dos professores, da família. Em Cacoal o cinema é lotado, as peças de teatro são lotadas, os shows são lotados, isso é um trabalho feito dentro das escolas, a presidente da Fucultural a professora Maria Lindomar é uma professora de carreira e por toda escola que ela passou ela foi levando isso, Coral de Música, Artes Plásticas. No meu gabinete na Seduc tenho um quadro pintado pelo meu filho que se aperfeiçoou nas oficinas de artes plásticas ministradas em Cacoal. É um quadro lindo.

fonte: DIÁRIO DA AMAZÔNIA

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