20 de novembro 2014 Canta Zumbi Dia da Consciência Negra

dez 14 • Cultura • 2331 Visualizações • Nenhum comentário em 20 de novembro 2014 Canta Zumbi Dia da Consciência Negra

CANTA ZUMBI

Preservar a memória é uma forma de construir a historia. “É pela disputa dessa memória, dessa história, que nos últimos anos se comemora no dia 20 de Novembro, O dia Nacional da Consciência Negra”. Nessa data, em 1695, foi assassinado Zumbi, um dos últimos lideres do Quilombo dos Palmares, que se transformou em um grande ícone da resistência negra ao escravismo e da luta pela liberdade, a escolha do 20 de Novembro foi muito mais do que uma simples oposição ao 13 de maio. ”Os movimentos sociais escolheram essa data para mostrar o quanto o país está marcado por diferenças e discriminação raciais, isso não é pouca coisa, pois o tema sempre foi negado, dentro e fora do Brasil como se não existisse”.

 

Nas escolas: “muitas propostas, poucas mudanças”.

No inicio de seu mandado o presidente Lula aprovou a inclusão do Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escola e tornou obrigatório o ensino de história da África nas escolas públicas e particulares do país. Embora a decisão tenha sido comemorada, alguns pesquisadores ressaltaram que existem obstáculos a serem ultrapassados para que a proposta se transforme em realidade. “Em geral, a história dada segue o livro didático e ele é insuficiente para dar conta de uma forma mais ampla e critica de toda a história”, essa avaliação historiadora é confirmada pela professora de história Ivanir Maia, da rede estadual paulista. “A maioria dos professores se orienta pelo livro didático para trabalhar os conteúdos em sala de aula. No livro de história, por exemplo, o negro aparece basicamente em dois momentos: Ao falar de abolição da escravatura e da apartheid”.

Ainda há muito para ser feito como no sentido de assegurar uma maior democratização em termos raciais e econômicos do sistema de ensino superior público.

“É preciso entender que a desigualdade no Brasil tem cor nome a história, esse não é um problema dos negros no Brasil, mas sim um problema do Brasil, que é de negros, brancos e outros mais”.

A identidade da criança negra

O trabalho de educação antirracista deve começar cedo. Na educação infantil, o primeiro desafio é o entendimento da identidade. A criança negra precisa se ver como negra aprender a respeitar a imagem que tem de si e ter modelos que confirmem essa expectativa. Por isso, deve ser cuidadosa a seleção de livros didáticos e de literatura que tenham famílias negras bem-sucedidas, por exemplo, heróis e heroínas negras. Se a linguagem do corpo é especialmente destacada nas series iniciais, por que não apresentar danças africanas, jogos como capoeira e musicas como samba e maracatu?

Em artes, a professora Simone Marambaia Lins de Carvalho, da Escola Fundação Bradesco, Rio de Janeiro, trabalhou mascaras africanas com turmas de 1ª serie. Um dos eixos do projeto ser Negro, sem preconceitos era desmistificar estereótipos da África. Os alunos pesquisaram curiosidades do continente africano ate chegar à arte, como a cultura de Benin, na Nigéria, produtora de máscaras religiosas. Papelão, tintas e colo renderam modelos coloridos e divertidos para afastar os maus espíritos.

Agora, não dá para falar da semana da consciência negra sem contar a história de Zumbi dos Palmares.

Tricentenário de Zumbi dos Palmares e 19 anos, ufa!

Neste ano de 2014, todo Brasil esta comemorando os 319 anos da morte de Zumbi dos Palmares. Haverá festa, concurso, rodeios, shows e programas de televisão. E nós do “CISC/NACRO” em parceria com a Escola E. E. F. M A. Francisco Mendes Alves Filho, Grupo de Capoeira Guerreiro de Rondônia, não deixaremos passar em branco este marco histórico para nossa cultura.

Vão comemorar até no estrangeiro.

– Valeu Zumbi!

Vão dizer isto em inglês, alemão, espanhol, japonês e suarili (uma língua africana). Nestas e noutras línguas que se falam pelo mundo a fora.

– Esta certo. Mas Zumbi, quem foi ele?

Um menino negro como tantos que há pelo Brasil, brincou de amarelinha, soltou balão, chupou caju, montou vassouras e saiu pela rua fingindo que era cavalo, só não jogou futebol porque esse jogo não tinha sido inventado ainda.

De noite, no escuro, tinha medo de Quibungo e da Mula- sem -cabeça, igual a qualquer menino.

Quando cresceu é que Zumbi fez coisas de assombrar.

Tempo de Escravidão

Naquele tempo havia a escravidão. Ser escravo era um sofrimento você trabalhava e no fim do mês não recebia salário. Cada dia, depois de concluir as tarefas, você era trancado em barracões sem cama nem rede.

– E a comida?

Feijão, farinha e peixe. Regulados. Em dias de santo

Padroeiro melhorava, em cima do angu vinham miúdos de boi.

Se você desagradasse ao feitor da fazenda, lá vinha palmatória e chicote de três pontas. Feitor é o que chamamos agora de capataz.

Tanta ruindade era para produzir açúcar. O Brasil era um grande canavial, tirando o mato brabo, ainda cheio de onças e sucuris, era tudo coberto de pé de cana, o escravo plantava e o escravo colhia. Como naquele tempo não havia caminhões, a cana era arrumada em carro de boi. Um escravinho ia tangendo os animais e cuidando para carga não cair. Se caísse, lá vinha o capataz.

Quem tocava para espremer cana era outro escravo. Só em algumas fazendas se usava boi ou água corrente. Feito o melaço, outro escravo enchia os tachos.

Se você olhasse da varanda da fazenda, era bonito o canavial todo verde. Com o vento da tarde fazia ondas como o mar. De perto era o inferno dos escravos.

Vai que a toda hora um escravo fugia.

Se fosse índio era muito difícil pegar e trazer de volta. Os índios eram daqui mesmo conheciam o mato como a palma da mão. Tinham parentes e amigos em cada canto. Os capatazes afiavam o chicote, mas desistiam:

-Esse índio sumiu do Desertão.

Com o tempo, falavam:

-Esse índio sumiu no sertão.

Já os escravos negros, trazidos da áfrica pelo pescoço, não conheciam a terra. Seus parentes e amigos estavam do outro lado do mar. Fugiam e eram recuperados. Imagine o que passavam na mão dos capatazes.

-Um dia é da caça, o outro do caçador.

Certa vez, no sul de Pernambuco, quarenta se juntaram para fugir. O fazendeiro engoliu a ira e o prejuízo.

Os fugitivos caminharam léguas e léguas, deram numa serra de muitas palmeiras, havia um rio largo e pedregoso.

Olhando lá de cima não via nenhum canavial.

Acamparam.

Esse foi o começo de Palmares.

-Qual foi à data?

O dia e o mês não sabem. Só o ano: 1597

Ganga Zumba

Palmares cresceu.

Os quarenta viraram cem, trezentos, quinhentos, mil. Quem fugisse já tinha pra onde ir. Fosse negro ou fosse índio.

Nem sempre chegavam. Você podia errar a direção, comer o que não devia enfrentar uma jaguatirica.

No ultimo instante, já com a língua de forra aparecia um palmarino e lhe Daca a mão. Chegando lá, são e salvo, você estava livre.

Os fazendeiros e o governo não se conformam com palmares. Quase todo ano mandavam uma expedição atacar a cidade dos negros e índios. Os palmarinos abandonavam as casas e se escondiam no fundo do mato. Antes mesmo de as expedições saírem para atacá-los, já estavam sabendo.

– Quem dava o serviço?

Negros que Viviam cá nas cidades mandavam avisar: tal dia e tal hora o inimigo sairá daqui. Espiões, comerciantes brancos também avisavam faziam negócios vendiam pólvora e sal aos palmarinos. Não iam perder o lucro.

O chefe de palmares se chamava Ganga Zumba. Ganga, em língua quimbundo, falada na áfrica, quer dizer rei. Zumba era o seu nome próprio. Era um sujeito corpulento, mas suave e esperto, ele os organizou num governo só.

O conjunto de mocambos era chamado de quilombo dos palmares. Tinha ministro, tinha embaixadores, tinha polícia, julgamento, capela, se pagava imposto.

Não havia escolas, como as de hoje. Não se usavam carteiras, quadro-negro, trabalho de casa ou castigo. Você aprendia vendo e imitando os adultos. Professores eram quem estivesse perto na hora. Você aprendia a plantar, fazer arapuca, a laçar capivara, a contar histórias e usar a lança.

Escrever não era preciso, ninguém se comunicava por escrito se quisesse mandar um recado para longe, ia por tambores. Gastava-se o tempo desenhando, inventando calungas de barro, dançando e cantando.

– E zumbi, que ainda não apareceu na história?

Vai que um dia uma expedição inimiga entrou num mocambo. Desceu o pau, queimou casa, degolou crianças e velhos. Um menino de meses escapou de morrer.

Chegando a porto calvo, o comandante deu a criatura de presente a um padre.

O destino é caprichoso. O padre virou pai e mãe do órfãozinho. Comprou uma escrava de seios grandes para amamentá-lo. O guri andou e falou rápido, enchendo o padre de orgulho.

– Vai se chamar Francisco. Porque é manso e inteligente. Francisco se tornou coroinha. Muita gente falava contra o padre pelas costas:

– Onde já se viu? Lugar de preto é na senzala.

Senzala era barracão sem cama e sem rede onde se trancavam os escravos.

O padre não se impressionava. Ensinou matemática. História da bíblia e latim a Francisco. O latim, língua de onde veio a nossa, era a dor de cabeça dos estudantes. Com dez anos Francisco falava latim sem problemas.

Francisco fez quinze anos. Era retinto, mais pra baixo que pra alto, magro.

Certa noite tomou a benção ao padre. Combinaram as tarefas que ia fazer pela manhã. Foi cada um para seu quarto.

Na manhã seguinte, o padre estranhou não ver Francisco de pé, estaria doente? Achou a rede vazia e a janela aberta. O padre sentiu uma tristeza enorme.

Mas não se preocupou, ele sabia para onde Francisco tinha ido.

Zumbi chega a palmares

Francisco andou vinte léguas sem parar: Uma légua é igual a seis quilômetros.

Chegando a palmares, Francisco trocou de nome resolveu se chamar Zumbi. Não conhecendo qualquer parente, adotou uma família, escolheu tios, tias e irmãos.

Com dezenove anos era chefe de um mocambo (ou aldeia). Palmares eram vários mocambos, espalhados numa região enorme. Os mocambos comunicavam entre eles obedeciam todos à Ganga Zumba, cada um tinha o seu chefe.

Zumbi devia ser um gênio da guerra, pois foi promovido imediatamente á comandante de armas, é o ministro da guerra de hoje, o general mais jovem da história brasileira.

– E Ganga Zumba?

O maioral de Palmares ia mal das pernas, perdeu uma batalha não eram batalhas como hoje, com foguetes, tanques e metralhadoras, não tinham sido inventados.

– Então, como se matava?

Havia espingardas, mas cada vez que você atirava tinha de socar pólvora, demorava e o inimigo fugia daí, se usava mais flechas envenenadas, a lança e a espada, na falta deles paus, pedras e água fervendo serviam. Faziam-se buracos com espetos disfarçados com galhos.

Os inimigos caíam e adeus, se você fosse índio, rachava a cabeça do cristão com um porrete de maçaranduba.

– Tacapes?

Bordunas, tacape é parecido, mas é outra coisa. Francisco, ou Zmbi, se tornou doutor na guerra do mato, guerra do mato é a guerrilha de hoje o segredo era atacar e sumir, atacar e sumir.

O Pensamento de Zumbi

O rei de Portugal ainda mandou oferecer as pazes a Zumbi duas vezes. Podia morar em liberdade onde quisesse, era só para de lutar contra a escravidão:

– Tem de ter escravo, sem escravos não tem açúcar, sem açúcar não tem Brasil, e sem Brasil não tem Portugal.

Zumbi pensava diferente:

– Não precisa ter escravos, pode ter açúcar sem escravos, pode ter Brasil sem açúcar e Portugal que se vire.

Não havendo acordo, a guerra ficou mais feroz, de vitória em vitória, Zumbi chegou perto do recife, havia escravos em cada casa, em cada palácio, até nas igrejas.

Se um nhônhô espirrasse, lá corria a escravinha com o lenço, se iaiá reclamasse de bicho-de-pé, quem vinha com o alfinete tirar?

– Zumbi invadiu Recife e libertou os escravos.

Errado, Zumbi não invadiu Recife, a capital do açúcar era rica e poderosa além da conta. Os donos de engenho tinham sócios do outro lado do mar, Zumbi não tinha barcos, não tinha cavalos, não tinha armas e não tinha dinheiro.

Zumbi só tinha mão e o sentimento de liberdade.

Escravos de Recife lhe contaram um segredo:

– O rei de Portugal mandou o governador contratar um bandeirante para acabar com Palmares.

Bandeirante era uma profissão de sujeitos pobres, a fim de enriquecer de qualquer maneira. Vinham em geral de São Paulo, que não eram nada naquele tempo. Para se bandeirante, primeiro você se casava com uma índia, depois, armava os parentes dela, que viravam seus amigos.

Cada índia tinha centenas de parentes, em seguida, você escolhia uma bandeira, enfiava num pedaço de pau e saia pelo mundo, se achasse ouro, prata, esmeraldas, melhor. Se não, cercava aldeias e pegava mais índios. Lá vendê-los no Rio, na Bahia, em Pernambuco…

Na volta muitas vezes, nem sua mulher lhe reconhecia.

O bandeirante invade palmares

O governador achou difícil contratar o bandeirante Domingos Jorge Velho.

Ele falava uma mistura de português, espanhol e tupi-guarani. O tupi-guarani era uma língua indígena, falado pela maioria dos brasileiros naquele tempo, soava bonito: Iguaçu, Ipanema, piá, cunha, curumim, Guanabara…

Ficou combinado que se Jorge Velho acabasse com Palmares, as terras de lá seriam dele, podia plantar cana-de-açúcar á vontade. Ou criar gado.

Jorge Velho também conhecia a guerra do mato. Páreo duro para Zumbi, durante anos vivera no sertão, incendiando ocas indígenas, abrindo caminho e subindo serras.

A caminho de palmares, Jorge Velho foi aumentando ser exercito, recolhia pobres com promessas de terras e de presas. Presas era um nome delicado para os escravos, índios que não ficavam do seu lado, ele degolavam, um horror.

A capital de Palmares ficava na Serra da Barriga, hoje fica em alagoas, a oitenta quilômetros de Maceió.

Quando Jorge Velho se aproximou, tomou um susto, uma muralha de troncos protegia palmares, Jorge Velho andou meia légua para direita e não achou a passagem, meia légua para a esquerda e também nada. Era tão alta que dez homens, um de pé no ombro do outro, não chegariam lá em cima.

Como se não bastasse, Zumbi mandara abrir um fosso do lado de fora da muralha, disfarçando com galhos e folhas, os soldados de Jorge Velho tentavam se aproximar com os canhões caiam lá dentro, morte certa.

A derrota de Palmares

O bandeirante não era bobo, aproveitou e escuro da noite e construiu uma contra muralha protegidos pela contra muralha, seus homens puderam aproximar os canhões.

As sentinelas de Palmares dormiram no ponto. Quando viram, a contra muralha estava pronta.

Em pela madrugada começou a cair uma chuva de pelouros sobre Palmares, Pelouros eram bolas de ferro atiradas por canhões, é o que diz o dicionário, que serve para isso, os pelouros passavam por cima da muralha e iam explodir lá dentro.

O incêndio engoliu tudo, não ficou pedra sobre pedra, no finzinho um grupo de guerreiros conseguiu escapulir. Em silêncio, foram saindo pela beira de um precipício. Em fila indiana. Um dos últimos da fila tropeçou numa pedra. Ela rolou no abismo, fazendo barulho. Os soldados de Jorge velho fizeram fogo. Vários guerreiros caíram mortos lá embaixo.

– E ZUMBI?

Correu que ele tinha se atirado no abismo. Preferiu a morte à escravidão. É assim que nascem as lendas:

 

Valeu zumbi

Na verdade, ZUMBI escapou.

Escondeu-se na serra dois irmãos, longe dali. Hoje também fica em alagoas.

Podem imaginar a sua dor. Palmares não existia mais. O exército da liberdade não existia mais. Sua cabeça estava a prêmio, quem o matasse ganharia uma fortuna.

– Para que viver?

Com paciência, ZUMBI começou a organizar outro exército.

Ganhara dezenas de batalhas. Só perdera aquela.

Ele agora puxava uma perna. Coxo. Um pelouro explodia a seu lado e ele ainda dera sorte. Tinha trinta e nove anos.

Outra vez ele começou a mandar espiões às cidades, trazer novos guerreiros. Um dia uma patrulha inimiga prendeu um desses guerrilheiros. Chamava-se soares. Imagine o que sofreu na mão dos soldados.

– Onde esta o general ZUMBI?

Soares foi pendurado numa arvore, chicoteado e apanhou de palmatória. Passou o diabo, até que entregou os pontos.

Levou os bandeirantes ao esconderijo de ZUMBI.

Conforme combinado, ele se aproximou sozinho. Os soldados se esconderam em volta.

Chamou:

– ZUMBI!

Quando ZUMBI apareceu, soares fez como que se fosse abraçá-lo.

Meteu-lhe o punhal na barriga. Ao mesmo tempo os soldados abriram fogo. ZUMBI ainda matou um e Feriu vários.

Isso aconteceu na manhã do dia 20 de novembro de 1695.

É hoje o dia nacional da consciência negra.

 

Por: Marcio de Castro

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